Análise
de Conjuntura Política: Notas para o MST
Plínio de Arruda Sampaio
1. A Revolução de 1930 marcou a entrada das massas
populares na política brasileira. O sistema político,
que aí teve início, fundou-se no que os cientistas
políticos denominaram pacto populista de poder. A mudança
não significou que as massas passassem a participar diretamente
das decisões do Estado. A política continuava sendo
território exclusivo das elites, somente que o governo
do Estado passava a ser entregue à facção
que contasse com o apoio das massas populares urbanas. Getúlio,
Jânio, Jango são todos membros e representantes de
facções da elite e governaram enquanto detiveram
o apoio das massas.
2. A dinâmica da política populista
gerou a crise dos anos 60 e a contra-revolução de
1964. Romperam-se então o pacto populista e a institucionalidade
democrática que o legitimava. Na recomposição
desta - um processo que vai de 1974 a 1984 - surge um elemento
novo no quadro político brasileiro : as massas populares,
que até então participavam na política como
clientela das lideranças populistas, conseguiram estabelecer
uma cabeça de ponte nesse território. O PT foi o
autor desse feito. O PT não é um partido de uma
facção da elite mas representativo de movimentos
genuínos da massa, que se unificaram no bojo das lutas
pela volta da legalidade (CUT, MST, CEBs, Pastorais Sociais da
Igreja). Esta constatação não desmerece as
tentativas anteriores, mas assinala apenas que foi a partir da
criação do PT que o processo político mudou
de qualidade: deixou de ser uma disputa entre facções
de elite para se tornar um confronto direto entre uma vanguarda
popular (representada pela coligação de partidos
de esquerda liderados pelo PT) e as elites dominantes. Pela primeira
vez, em quinhentos anos de história, a luta de classes
polarizou-se: partidos do povo versus partidos das elites.
3. Este formidável salto apresentou dois
momentos em sua evolução: do final dos anos 70 até
a primeira candidatura de Lula em 1989; e desta data até
a Carta aos Brasileiros, escrita por Lula em 2002. O primeiro
momento foi de avanço (campanhas da Reforma Agrária
e da Anistia, Constituinte de 88; fundação da CUT,
MST, PT; explosão das CEBs; vitórias eleitorais
em São Paulo, Porto Alegre, Vitória; campanha presidencial
do Lula). O segundo momento foi de desaceleração.
Motivaram esse recuo: o impacto da virada neoliberal do capitalismo
internacional no Brasil e a unificação das elites
em torno da renúncia ao projeto de construção
nacional que havia marcado a Era Vargas. Durante a década
de 90, as forças populares sofreram derrotas importantes:
a CUT perdeu a combatividade; os movimentos da Igreja foram desmobilizados;
o PT enveredou pela via eleitoralista.A pá de cal nessa
involução veio com a campanha eleitoral de 2002,
especialmente a partir da Carta aos Brasileiros, documento em
que Lula ofereceu aos credores internacionais e ao mercado brasileiro
(leia-se ao establishment capitalista) garantia de cumprimento
dos compromissos firmados por FHC. Ao aceitar esse compromisso,
o PT renunciou o projeto de transformação socialista
e converteu-se em mais um partido da ordem estabelecida. No elenco
desses partidos, seu governo diferencia-se unicamente por uma
sensibilidade social maior do que os demais.
4.A conclusão desta análise é
que as massas populares perderam a cabeça de ponte que
haviam conseguido fincar em solo inimigo. Dito de outro modo:
o socialismo, enquanto proposta alternativa representada pelo
PT, foi excluído da disputa política institucional.
Não, obviamente, no sentido de que foi considerado ilegal,
como aconteceu com as ideologias de esquerda após 64, mas
no sentido de que a posição dos socialistas enfraqueceu-se
tanto na correlação de forças políticas
que, hoje, seu posicionamento não afeta em nada o resultado
das decisões políticas. A decorrência lógica
desta conclusão é que os socialistas, não
tendo como avançar na esfera da política institucional
- dado que o PT foi cooptado pela ordem estabelecida - precisa
construir uma estratégia que lhes permita avançar
no andar de baixo, ou seja, crescer por fora do atual sistema
de tomada de decisões do Estado.
5. As tarefas do momento são portanto:
Aproveitar a legalidade para mobilizar setores
populares na reivindicação de direitos; aproveitar
as brechas e divisões da elite para realizar atos de desobediência
civil; denunciar o sistema, articular os grupos socialistas dispersos
pelo país; realizar um sério trabalho de reflexão
sobre a trajetória do socialismo no mundo e do país;
formar quadros.
Se essas tarefas forem cumpridas, será possível
reconquistar a posição perdida e montar uma nova
ofensiva na linha da trajetória para o socialismo, assim
que houver uma nova onda de mobilização das massas.
Tudo indica que seja possível apostar nessa nova onda,
embora não se possa fazer nenhuma previsão acerca
da data da sua eclosão.
6. O MST e a conjuntura
O MST assumiu nestes 20 anos uma posição
impar no quadro político brasileiro. Ele é um movimento
social mas com uma grande influência na esfera da política.
No primeiro momento do processo de organização das
massas, o Movimento cresceu como os demais, no bojo da onda popular.
Diferenciou-se apenas por um grau de radicalidade maior, inerente
ao tipo de embate que trava com a elite, pois a reforma agrária
afeta diretamente o instituto da propriedade, enquanto os demais
impactam somente os fluxos de renda do capital.
No segundo momento, quando CUT, CEBS e PT perderam o ímpeto,
o MST ficou sozinho na posição de enfrentamento
com o establishment. Era natural, portanto, que se tornasse a
grande referência de todos os grupos engajados na luta pela
transformação social.
Paradoxalmente, essa posição de liderança
sofreu sério golpe com a eleição de Lula.
Como era de se esperar, a população rural e os setores
populares urbanos que votaram em Lula contavam certos com a reforma
agrária. Mas a resposta do governo foi pífia e,
até agora, não deu sinais de melhora, não
só por causa das restrições orçamentárias,
mas porque fica dia a dia mais claro que a política adotada
é realizar assentamentos rurais sem contrariar o lobby
do latifúndio e do agronegócio.
Em razão disso, o MST enfrenta atualmente um dilema: radicalizar
a pressão pela reforma agrária ou moderá-la?
Se radicalizar, perderá o apoio de Lula e terá de
enfrentar sozinho a violência do latifúndio, correndo
ainda o risco de que essa violência, não sendo contida
pelo Estado, amedronte a população rural, com graves
conseqüências para o avanço da luta camponesa.
As ações mais recentes do latifúndio dão
a impressão de que a direita percebeu o dilema do Movimento
e decidiu pressionar o governo para que este passe a impedir policialmente
as ocupações. CPI da Terra; massacre de Felizburgo;
assassinato da Irmã Dorothy; eleição de Ronaldo
Caiado para presidir a Comissão de Agricultura da Câmara
são sintomas dessa escalada.
7. No quadro político brasileiro, o MST
não é apenas um movimento social que expressa uma
reivindicação corporativa (no sentido de demanda
de um segmento da população). A importância
estratégica da reforma agrária torna o movimento,
automaticamente, uma força política diretamente
envolvida na política. Além disso, o MST tem uma
clara opção ideológica: trata-se de uma força
socialista, ainda que somente seus quadros tenham feito explicitamente
esta opção.
Por ser uma força política, a única que ficou
em posição de luta aberta contra o sistema nestes
últimos dez anos, o MST adquiriu um grande poder convocatório
e agregou em torno de si grupos socialistas dentro e fora do PT.
A crise que se desenvolve no interior do PT e que abrange todo
o movimento socialista brasileiro cria um novo dilema para a organização:
continuar ligado ao PT ou afastar-se dele?
Parcela significativa dos militantes mais aguerridos já
abandonou o partido; outra parcela colocou-se em dissidência
aberta contra a direção partidária. Mais
dia, menos dia, o PT será denunciado pelos dissidentes
como uma força contrária aos interesses do povo.
Qual deverá ser a posição do MST diante dessa
situação?
Uma estratégia possível consiste em manter-se alheio
à disputa; utilizar pragmaticamente a legenda petista para
eleger deputados saídos de suas fileiras ou simpáticos
à sua luta; e realizar paralelamente um esforço
discreto de expansão do seu braço político:
a Consulta Popular.
Do ponto de vista de sua base rural, parece não haver dificuldade
na execução desta estratégia, pois a popularidade
de Lula entre os sem terra continua muito grande; mas, do ponto
de vista da liderança que o Movimento tem na esquerda e
da contribuição que pode fazer para o avanço
do socialismo no país, não será fácil
poupar o PT e manter-se na vanguarda.
A posição oposta, de afastamento e denúncia
do PT, implica rompimento com o governo e isolamento na disputa
com o latifúndio.
A gravidade da constatação desse dilema é
que não se vê sinais de que haja possibilidades concretas
de avanço da luta socialista em outros setores da massa
popular.
Nunca talvez em outro momento da vida nacional
foi tão importante - e tão difícil - cumprir
as três tarefas do militante socialista, tal como Florestan
Fernandes as formulou: “não se deixar cooptar; não
se deixar liquidar; conseguir vitórias para o povo ”. |