Autonomia Universitária

Luís Antônio de Oliveira Proença1

Em um momento do livro de Umberto Eco, Baldolino, que se passa na época medieval, o Imperador Frederico I se encontra em um impasse: para dominar uma região da Itália e ser aceito como tal, sem que muito sangue fosse derramado, necessitaria ser ungido pelo Papa. Neste caso, o poder papal se apresentaria maior daquele do imperador, que era assegurado pelas leis romanas. Ao se submeter ao Papa, o imperador estaria reconhecendo seu poder sobre o império. “Onde diabos irei encontrar alguém que possa definir os meus direitos, sem que se considere superior a mim?” Disse Baldolino: “Talvez não exista um poder assim, mas o saber existe... tais comunidades de mestres e alunos funcionam por conta própria: alunos de todo o mundo, quaisquer sejam seus soberanos, pagam seus mestres... que antes ensinavam na escola da catedral... e hoje buscam descobrir a verdade sem depender dar ouvidos ao bispo ou a rei.”
Esta é uma passagem romântica, que aborda o início das universidades européias. Nelas os mestres ensinavam alunos que pagavam para ter aulas sobre política, filosofia, astronomia, direito, entre outros assuntos antes dominados pela igreja. Baldolino ainda orienta o Imperador: “...se fizesses uma lei, na qual reconheces que os mestres de Bolonha são realmente independentes de qualquer outra potestade, tua ou do papa.... hão de afirmar que – segundo a justa razão, a luz natural à tradição –a única lei é a romana...”. E assim aconteceu e como prêmio pelo conselho, Baldolino foi estudar num studium em Paris e descreve, já naquele tempo, as ainda não tão famosas farras estudantis.
O que mais me chama atenção na passagem, no entanto, é a questão pontuada de que o valor do saber acadêmico depende de sua liberdade. Dando liberdade aos sábios, a verdade não estaria subordinada nem ao estado, nem à igreja, surgindo assim um novo poder - o do conhecimento laico.
Certamente a universidade medieval livre era uma utopia. Porém ela desfrutava de certa autonomia, uma vez que a arrecadação provinha diretamente do serviço prestado, ou seja, do ensino. Desde então, muita coisa mudou nas universidades, porém a luta por autonomia e liberdade continua. As universidades devem ser livres para idéias, comportamento e expressão. No ambiente livre, borbulham diferentes vertentes que se testam mutuamente e, assim o saber vai se desenvolvendo a medida da própria capacidade humana. Em grandes centros é comum encontrar em um único departamento, por exemplo, linhas de pensamento divergentes e, até mesmo, excludentes convivendo, mesmo que nem sempre em harmonia, mas lá estão. O cerceamento da liberdade, por motivos políticos, culturais ou econômicos, interrompe o processo.
A autonomia das universidades é uma questão em pauta, sejam elas públicas, privadas ou mistas. As federais, por exemplo, dependem dos repasses do governo, o que de uma forma ou outra interfere e condiciona sua existência. Autonomia restrita também é um problema nas universidades privadas, que visam o lucro e possuem a figura do “dono”. Já as universidades mistas, sem fins lucrativos, que transitam no marco de instituição pública de caráter privado, podem ter algumas vantagens quanto a esta questão. Teoricamente independem do Estado, uma vez que seus custos são cobertos pelas mensalidades dos alunos, ou seja, pela comunidade. Como não possuem um “dono”, podem ter autonomia gerencial. Este é um modelo próximo ao adotado por várias grandes universidades norte americanas.
Em uma breve análise, o modelo misto, tem grande potencial para atingir uma autonomia significativa em ambientes democráticos. As universidades que operam no modelo misto, mesmo que em alguns casos sejam instituições ainda jovens perante outras instituições de ensino superior, tem ainda um caminho pela frente, no sentido de assegurar sua autonomia, consolidar sua excelência intelectual e exercer seu poder - de dever e de direito - na sociedade, ou seja, aquele emanado do saber.

* Texto publicado no “Informativo do SINPRO” agosto de 2004.

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